
Gus Greenstein participe numa roda de cientistas, artistas, policias militares baianas e gestores da America Latina durante o fórum.
O último dos 50 convidados que comporem a intervenção cultural e pedagógica nacional e latino-americana do primeiro Fórum Bem Viver saiu do Pará na terça passada. Jovem pesquisador da Universidade de Oxford na Inglaterra, o Californiano Gus Greenstein de 25 anos, saiu de uma roda de formação em São João do Araguaia na sexta feira, se despediu do Hotel Imperial na Orla, e realizou entrevistas com a Polícia Militar e com gestores do projeto Rios de Encontro em Belém, e pegou um voo que aterrizou logo após o terremoto que derrubou o México na madrugada de quarta.
“Meu deus! Difícil aguentar tanto sofrimento e explicar tanta violência”, falou Gus por whatsup a Dan Baron, da coordenação do Rios de Encontro, ontem. “No primeiro momento”, disse Dan, “não sabia se estava respondendo ao caos trágico na Cidade de México, às crises pneumáticas infantis causadas pelas queimadas e a seca em Marabá, ou ao feminicídio da Eliane Souza que abalou todos os 50 convidados do Fórum que foram atendidos com tanto cuidado por ela, uma pessoa massacrada pela coragem de largar uma vida de violência em busca de bem viver.”

Polícia Militar da Bahia brinca com aluno do Plínip Pinheiro numa grande apresentação de dança afro e capoeira.
“As últimas duas rodas do Fórum com estudantes do Direito da Terra, diretores da escola, vereadores e bibliotecárias em São João do Araguaia e com ex-Chef Maior do Pará Coronel Costa Jr. e oficiais da inteligência da segurança pública no município de Marituba”, explica Dan Baron, “traçaram relações inesperadas entre a industrialização dos rios da Amazônia, a grande vulnerabilidade das mães e jovens negros na região com o aumento vertiginoso da pobreza e pessimismo, e o desequilíbrio ecossistêmico mundial. Tudo foi gravado e já está saindo em jornais no mundo.”

Gus apresenta sua pesquisa mundial para gestores em São João do Araguaia pós fórum.JPG
Em São João, Gus Greenstein compartilhou pesquisa acadêmica atual sobre as políticas de financiamento de hidrelétricas em 8 países nos quatro continentes da África, Ásia, Europa e as Américas. A partir de suas vivências com comunidades sofrendo e resistindo à mega-projetos hídricos, Gus demonstrou a inviabilidade econômica, política e desenvolvimentalista do mega-projeto industrial planejado para o Rio Tocantins. O jovem pesquisador concentrou, porém, sobre dois fatos chaves na formação de um movimento social.
“Minha pesquisa mostra que o próprio Banco Mundial não financia mais a construção de hidrelétricas por causa dos impactos socioambientais de Belo Monte em Altamira. E que a lei das Nações Unidas sobre ‘consulta prévia, livre e informada com todos que serão ou poderiam ser impactados’ faz parte de tratos assinados pelo Brasil e todo membro país no mundo, protege e relaciona direitos humanos com direitos ambientais.” Apoiado por Rios de Encontro, São João realizará um Festival Bem Viver em novembro de 2017, na beira do Rio Tocantins.
Gus Greenstein ficou impressionado com a consciência e inteligência socioambientais da PM em Belém. “Imagina”, escreveu Gus no whatsup ontem, “o comandante que ajudou formar o atual Comandante Roosevelt de Marabá, encerrando minha entrevista com as palavras ‘A segurança deve ser pedagogia de transformação e vida sustentável’.”
Numa entrevista que durou 3 horas, o Coronel Costa Jr. e seus dois colegas relacionaram explicitamente os megaprojetos em Altamira e Tucuruí com o aumento acelerado de prostituição infantil, tráfico de craque, depressão generalizada e violência doméstica.
“O comandante explicou que o projeto é anunciado antes da realização de estudos independentes sobre impactos socioambientais, consulta prévia e orçamento das condicionantes infra-estruturais sociais e sua manutenção. Isso é ilegal e prejudica a vida de todos. Mas fundamentou também como o corte de laços familiares e do acesso ao rio gera crise civilizatória no nível interpessoal. E explicou como o aumento de estrupo, feminicídio e dependência química manifesta a raiz da tragédia: descuido dos políticos e empresários sobre o bem viver.”

A PM de Marabá e da Bahia se retrata com pedagogas e lideranças ambientalistas pós fórum, na Galeria do Povo em Cabelo Seco.
Coronel Costa Jr. se comprometeu no final da entrevista realizar uma residência pedagógica e cultural em Marabá, no final de outubro para sensibilizar a Câmara dos Vereadores e motivar a sociedade civil elaborar projetos de segurança comunitária.
“Gus embarcou”, concluiu Dan Baron. “24 horas depois, no meio de um terramoto, ele recebeu notícias sobre Eliane Souza, a última Marabaense que desejou boa viagem a ele. Se desesperou. Mas Gus volta a universidade no mais alto ranking no mundo com esperança. Apesar das violências de seca, pobreza e corrupção derrubando Amazônia, e um feminicídio que o abalou, ele viu parcerias visionárias, emergindo, unidas pelo projeto permanente bem viver. Quando ele publica isso nos grandes jornais independentes no mundo, rios de intervenção solidária vão fluir.”
