1ª Carta de Elisa : Amazônia alcança Bruxelles

Elisa Dias e Dan Baron viajaram para Bélgica, Alemanha, Polônia e Espanha nas ultimas duas semanas para gestionar a turnê europeia do novo espetáculo ‘Rios Voadores’ do projeto Rios de Encontro, a ser apresentado pelo Coletivo AfroRaiz em setembro-outubro, 2019. Aqui, Elisa reflete sobre aspectos de sua viagem que a tocaram, na primeira de 03 cartas, para compartilhar sua experiência com as redes de amigos e amigas.

Elisa e ativistas de Sextas pelo Futuro se retratam em Bruxelles.

Meus amigas e amigos!

Quando eu estava saindo de Marabá, eu percebi que estava entrando em uma nova fase de minha vida, na qual sempre lutei para chegar, não só de conhecimento, graças o meus esforço e formação no projeto Rios de Encontro, de querer ser um pessoa bem informada, mas como artista e arte educadora e comunitária afro-indígena, capaz de defender Amazônia!

Elisa logo escolheu essa placa por sua irreverência e coragem!

Já de Belém até Bruxelas aconteceram muitas cenas inesperadas! Um uberista japonês-brasileiro nos levou ao aeroporto, e explicou porque vende Bitcom, acreditando que com a venda dessas moedas, não só melhoraria sua renda no Brasil, mas sobreviveria o colapso do dólar americano e a indústria bancária! Uma aula inesperada no banco atrás, meu djembe na mão, minha raiz protegida! Mas revelou quanto não sabia sobre o futuro.

Ao entrar no avião de Belém pará Lisboa, senti que estava com uma grande responsabilidade, indo para fora do Brasil, parte de um projeto bem maior, que vem defendendo a vida do povo amazônico durante décadas! Chegando em Lisboa, claro o clima mudou, desde a temperatura até o fuso horário. Mas logo chegamos em Bruxelles, comecei a perceber o quão é complexa viajar no planeta Terra! Nossas malas ficaram em Lisboa por não ter tempo do avião as transferir ao avião à Bruxelles, e percebi quanto eu confiava na autoridade no ‘primeiro mundo’!

Elisa Dias coordena a batucada coletiva de mobilização e motivação no movimento Levante Popular, que aumenta cada vez mais sua liderança.

Em Bruxelas eu fiquei encantada com a quantidade de árvores, pois a Bélgica é um país ‘avançado’ e imaginava que seria avançado só em tecnologia. Mas há um cuidado com o ser humano, com uma boa alimentação, com os refugiados e imigrantes, e com parques como direito humano de cada cidadã.

Monumento público na Praça do Parque Ambiorix que afirma masculinidade sensível.

No parque de Praça Ambiorix em Bruxelas tem uma estátua bastante desafiadora para quem não usa a imaginação para interpretar o significado de arte. Retrata um homem montado no cavalo, seguindo seus movimentos, não em posição militar, mas em atitude de respeito, conhecimento, sensibilidade trabalhadora. Que estátua carinhosa!

Outras estátuas me chamaram atenção. A jovem Belgica, uma mulher quase caindo, sem equilíbrio formal, balançando entre dança e paixão! Que país se retrata assim?

Elisa dialoga com eco-ativistas da Escola Europeia no escritório de Centro de Jornalismo Infantil próximo ao Parlamento Europeu.

Uma roda no escritório de Centro de Jornalismo Infantil com três segundaristas da Escola Europeia mudou completamente minha percepção de mim mesma! Numa sala cheia de placas caseiras sobre Greve Contra Colapso Climático, Gaia e Miguel explicaram em português como cobrem o movimento escolar Sextas Pelo Futuro, traduzindo minhas histórias sobre ativismo cultura para cuidar da Amazônia em inglês e francas pra sua colega, Nora.

Não tiraram seus olhos de meus, enquanto expliquei a situação grave sobre a ameaça àos nossos direitos humanos e à segurança social e climatica no país. Percebi que quase nada chega sobre América Latina e Amazônia à Europa! E esses filhos de deputados europeus e ONGs mundiais, a próxima geração de lideranças, estão famintos pra qualquer informação sobre Amazônia, qualquer esperança de diálogo e ação internacional! Sai de lá determinada pra levar Sextas pelo Futuro à Marabá!

Elisa se retrata diante uma escultura que valoriza o movimento continua de língua, memória, cultura e idéias, uma coluna que estrutura os temas nos 6 andares da Casa da História Europeia.

Em seguida, visitamos a Casa de História Europeia, onde tem as histórias contadas com objetos, panfletos, artes, clips, vídeos, máscaras de gás, cartazes, poesia e citações, para contar a história de lutas entre conquistadores e libertadores, até a guerra fria entre duas visões militarizadas sobre o futuro. Nunca imaginava Fascismo e Stalinismo como movimentos tão parecidos, de tanta repressão e genocídio industrializados!

Percebi a continuidade entre cada história, uma ligada à outra, na busca de ideais. Naquela grande exibição permanente de 6 andares, fez perceber que ainda tenho que ler muito e me desafiar enquanto futura caloura de história, para adquirir uma consciência histórica.

Elisa aprecia um o dialogo ecossocial entre energia limpa e industria sustentável próximo ao Parlamento Europeu.

Uma frase do Primeiro Ministro inglês Winston Churchill que comandou a luta contra Hitler, me indignou: “temos de virar as costas à violência da guerra e mergulhar na abençoada oblivião da amnésia, olhando ao futuro.”

Uma frase oposta de Simone Weil, sobrevivente de um campo de concentração, me inspirou: “sem memória, não tem como aprender com nosso passado, para não o repetir no futuro; sem memória, não tenho esperança.”

Elisa documenta a beleza natural nos parques de Bruxelles.

A cena que mais me atraiu foi uma státuas de uma mulher que não segue o padrão que a sociedade exige, inspirando e mostrando a luta do movimento feminista, vestida de uma roupa super colorida, orgulhosa de sua pele negra. Aí, me encontrei, nunca desistindo do que desejo agora, não deixando para amanhã o que posso fazer hoje, aproveitando da vida, de olho visionário consciente de tudo que já aconteceu.

Elisa estuda a escultura lúdica de Jean-Michel Folon no Museu Folon.

Encerramos nossa visita à Bruxelles com uma visita à Museu Folon, no meio de um parque de florestas e lagos, uma casa cheia das ilustrações, esculturas e instalações de um grande artista Bélgica que defendia todas as liberdades e o direito de sonhar e criar! Através da arte bem lúdica, engajada mas poética, pegou símbolos bem conhecidos mas os colocou em situações ou contextos inesperados. A gente vivência o direito de interpretar, se indignar, e se libertar, criando nossa própria consciência crítica e a confiança de transformar. Adorei!

Elisa Dias
Rios de Encontro
04.06.19

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