Rios de Encontro, o projeto eco-cultural e socioeducativo enraizado na comunidade Cabelo Seco, concluiu no sábado passado um mês de ações virtuais, iniciando uma nova década de gestão pós Covid 19. No mesmo período, seu primeiro projeto ‘As Castanheiras Lembram’ foi contemplado pelo edital Preamar da Secretaria da Cultura do Pará.

O monumento ‘As Castanheiras de Eldorado dos Carajás (1999) será reinterpretado em uma crônica audiovisual sobre o futuro.
No dia 27 de Maio, o Projeto abriu o fórum internacional sobre Arte Comunitária em Tempos Difíceis, sediado pela Universidade Chinesa de Hong Kong, onde estreiou seu vídeo ‘Rio Voador’. “Apresentei a evolução do Coletivo AfroRaiz”, disse Dan Baron, coordenador internacional do Projeto. “Destaquei o colapso climático, provocado pelo atual modelo devastador de desenvolvimento, como causa do Covid 19. Aprendi muito dos diversos projetos de pedagogias artísticas de cuidado, já respondendo à pandemia.”
No dia 30 de Maio, Dan Baron abriu o webinar ‘Arte Educação pela Sustentabilidade’ sediado pela Aliança Mundial pela Arte Educação e a UNESCO, para experts de 46 países. “Rios de Encontro foi escolhido pela sua continuidade de experimentação educacional ao longo de 11 anos, liderada por jovens de Cabelo Seco. Focalizei sobre a ameaça à direitos humanos pelos aplicativos da vigilância eletrônica, usados em nome de segurança nacional.”
Após lançar no YouTube o vídeo do espetáculo ‘Rio Voador’, no Dia Mundial do Meio Ambiente (05 de junho), Rios de Encontro realizou duas rodas virtuais sobre ‘Arteducação no Limiar’.
“Essas ações são nossa adaptação à realidade da pandemia”, disse Manoela Souza, coordenadora pedagógica do projeto, suspenso em Cabelo Seco desde dia 03 de março. “Nosso espetáculo ‘Rio Voador’ antecipou em 2019 um mundo refugiado em casa (‘lockdown’), por causa de uma crise respiratória. Mas nunca imaginamos o tamanho da tragédia do genocídio acontecendo hoje no Brasil, consequência de tanta negligência criminosa presidencial.”
“A quarentena é proteção contra as crises ecológica, econômica e politica. Mas também, é um retiro de formação, em cuidado, saúde integral e consciência ecológica. Agora, a carga psicoemocional de tanta indignação e sofrimento em quarentena está explodindo nos protestos socioculturais tão necessários, contra o racismo e neo-fascismo. Todas as feridas coloniais que nosso projeto vem transformando nos últimos 10 anos estão transparecidas. ‘Rio Voador’ está sendo baixado do YouTube por jovens e professores no mundo inteiro. O mundo vai sair do trauma da pandemia com muitos novos recursos para interpretar uma fúria de reivindicação”.

Rede ABRA escuta a Gabriela Machado toca o pandeiro na presença de arteducadores da Uganda, Canada, Hong Kong, Peru e França (Arteducação no Limiar)
As rodas virtuais ‘Arteducação no Limiar’ nos dias 05 e 13 de Junho, reunirem arte educadoras da França, Espana, Vietnã, Hong Kong, Uganda, Nova Zelândia, Canadá, Peru e Brasil (Pará, Maranhão, Bahia, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). “Junto com a Rede ABRA (Rede Brasileira de Arteducadores), transformamos o formato meio mecânico da atual live (uma mesa de três autoridades e um mediador), em uma roda experimental”, explicou Dan Baron que a coordenou.
“Cada pessoa acendeu uma vela em casa para lembrar daqueles que já faleceram na pandemia, e solidarizar-se com os vulneráveis”, disse Gabriela Machado de Minas Gerais. “Depois, cada pessoa cantou uma música de raiz e contou um aprendizado criativo durante a pandemia.”
A professora Gabriela continuou. “Um provérbio Asiático valorizou a criança. Uma piada Africana valorizou o abraço. Um ritual Maori celebrou a Mãe Terra. A transformação de instrumentos musicais destruídos pelo fascismo em vasos de plantas medicinais, de jardim bem viver invadido em mudas de imunidade, de celular viciador em avião para que um idoso isolado pudesse conhecer o Mar Atlântico no Brasil, da morte de esperança de uma professora em carta poética ao prefeito, do conto infantil em poema critico da negligencia governmental, da crise materna de ensino em casa em poema de amor. A diversidade da roda marcou todos! A reunião virtual virou um espaço íntimo e coletivo.”
Dan Baron enxerga faíscas de esperança apesar do genocídio que o mundo está passando. “A pesar de que a maioria das famílias está presa em casa lotada, passando fome, depressão, medo do futuro, e até aumento da violência doméstica, nossas rodas revelaram a solidariedade íntima dos vizinhos, debates sobre bem viver entre gerações, e apoio pela busca de igualdade racial e justiça social na rua”.
Dan Baron encerra: “O mundo pré Covid 19 era insustentável. Brasil, e Amazônia em particular, ainda vão sofrer tanto, por falta de liderança baseada na ciência e compromisso com a vida. Mas a pandemia já revelou a potência humanizadora do celular e as mídias sociais, e alertou a espécie humana toda que precisa mudar tudo para sobreviver. Uma pedagogia cruel, de vida e morte, para iluminar as causas do escuridão do ódio e terror do fascismo que nós ameaça.”




