Durante uma década, Rios de Encontro, o projeto eco-cultural e socioeducativo enraizado na comunidade de Cabelo Seco, transformou a pracinha e as ruas do bairro em uma ‘galeria do povo, sem as molduras da arte excludente’. A coleção de instalações artísticas mensais foi selecionada pelo Edital de Artes Visuais – Lei Aldir Blanc Pará 2020, na semana passada como seu projeto ‘Amazônia Sem Molduras’, parte do projeto do Rios de Encontro 2021, Marabá Bem Viver.

Outdoor na ‘galeria do povo’ serve como fundo para gravar as Latinhas de Quintal para promover sua turnê nos EUA em 2015.
“Publicamos poesia com fotos todo mês em outdoors e minidoors que retratam a vida ecológica, sociocultural, política e pedagógica, a partir do íntimo de Cabelo Seco”, explica Dan Baron, artista responsável, parte da coordenação do Rios de Encontro. “Mas ficou a dimensão mais desconhecida do projeto. Agora será compartilhada com Marabá e a região, fortalecendo Cabelo Seco como um território e guardião da cultura amazônica.”

Todos os micro-projetos reunem na ‘galeria do povo’ com sua ‘camiseta poética’ para celebrar Dia Internacional da Mulher (2016).
Entre 2009-20, Cabelo Seco vivenciou uma evolução inédita do grupo cultural de artistas infantis e adolescentes, as ‘Latinhas de Quintal’, se tornando o premiado Coletivo AfroRaiz de performance educadores. O Coletivo sensibilizou jovens e adultos de tantos bairros e escolas de Marabá, educadores, e artistas e ativistas culturais em todas as regiões do país e, a partir de residências, conferências e turnês artísticas, das Américas, Europa, África, Ásia e Pacífica. Tudo foi registrado em 8 livros-calendários, 110 vídeos (de 8 milhões de visualizações), e instalações de artes visuais.
“Foi tão intenso”, Dan explica, “faltou tempo para compartilhar tudo que foi criado e aprendido. O Jornal Correio Tocantins continua como parceiro no registro desse processo, destacando tanto o colapso climático que nossos jovens artistas alertavam, quanto os projetos alternativos de bem viver. Mas além de popularizar a poesia e valorizar a cultura afroindígena, os outdoors e minidoors mensais demonstraram a alfabetização ecológica na comunidade como base da educação pela sustentabilidade, enraizada na amazônica. A pandemia comprovou tudo!”
Como poeta, fotógrafo e artista visual, Dan Baron experimentou durante uma década como inspirar e celebrar a comunidade, sempre em consulta com as famílias e com AfroRaiz, colocando poemas e retratos sobre a vida de Cabelo Seco, nas camisetas das bicicletadas e dos festivais do projeto.

Outdoor que mostra a performance da Rede Brasileira de Arteducadores (ABRA) protegendo o Pedral do Lourenção em 2016.
“Vamos criar uma exposição que garanta que Cabelo Seco e todas as escolas de Marabá terão acesso à sabedoria ecológica pescadora, para questionar o projeto ‘ecocidal’ da atual industrialização da Amazônia, e para continuar criando o projeto de bem viver, e inspirando comunidades na região, no país e no mundo tornarem-se guardiões do ecossistema mais importante no mundo.”
“Vamos criar duas bolsas com esse prêmio para que adolescentes de Cabelo Seco possam colaborar na idealização da exposição online e presencial na Casa dos Rios. Esperamos que Amazônia Sem Molduras celebrará a criatividade de crianças, jovens e mestres na comunidade ribeirinha, fortalecerá sua autoconfiança para defender a riqueza de seu território, e abrirá horizontes de esperança, em tempos de ecocídio.”


