
Na roda de abertura do Festival d’ Avignon no dia 30 de junho, Dan Baron, eco-pedagógo e co-coordenador do Instituto Transformance abordou o tema “Cultura em Tempos Neo-Fascistas”, junto a outros renomados participantes do cenário cultural internacional. A mesa contou com Cláudio Longhi, diretor do Teatro Piccolo de Milão, Itália; Emília de la Iglesia, presidente da Cultura Viva Comunitária, na Argentina; e Mariano Pensotti, cineasta argentino. A moderação foi realizada por Maxime Sechaud, diretor do Setor de Teatro do Sindicato da Confederação Geral do Trabalho (CGT), que perguntou sobre o foco principal atual do projeto Rios de Encontro.
Dan citou a ansiedade climática e a insegurança sobre o futuro relatadas nas escolas de Marabá, entre outros traumas, associados à pandemia, “solo fertil de autoritarismo”. Concluiu sua contribuição com o poema ‘Ja’ que resume 12 anos de aprendizado no projeto Rios de Encontro com a comunidade Cabelo Seco e retrata as artes como metodologias ancestrais e visionárias da educação reimaginada como viveiro comunitário da Eco-Pedagogia que o Instituto Transformance hoje está popularizando junto com o governo federal:
Quando nossas canoas retornam famintas
transformamos nossa fome em dança
quando nossas florestas viram pó
transformamos nossa asma em canto
para que quando os usineiros da paz
oferecem reciclar nossos bisnetos
asfixiados por sua ganância ecocida
Marabá já estará revivendo
Porque na cura de cada cicatriz
aprendemos a arte de cuidar
no silêncio de cada agrado
aprendemos a coragem de ousar
e na pergunta de cada criança
nasce um pulso ancestral do bem viver
“O que foi aprendido durante os quatro anos após a anulação do Ministério da Cultura pelo Governo Bolsonaro em 2019”, perguntou Maxime Sechaud. Dan destacou a importância do financiamento solidário da Alemanha e da Espana para criar e realizar a turnê Europeia do espetáculo Rio Voador, e nos anos da pandemia, da criação de publicações eco-pedagógicas, vídeos e exposições que explicam as metodologias coletivas e comunitárias do Rios de Encontro. “O público no festival logo abraçou as rodas de leitura na pracinha da biblioteca Folhas da Vida, passando casa em casa com livros e mudas, e a realização de bicicletadas e pipadas como pedagogias comunitárias para cultivar liderança e solidariedade entre crianças e adolescentes. Sobretudo, celebrando a leitura cotidiana da comunidade como ciência ribeirinha, uma eco-pedagogia amazônica nativa.”

Na terceira pergunta sobre desafios atuais, Dan destacou a ansiedade climática, crises de vômito, desmaio, choro, agressividade e auto-mutilação relatadas nas escolas em Marabá e no mundo. Ligou isso com o trauma existencial da pandemia.“Governos no mundo inteiro foram preocupados com o resgate do tempo perdido e da restauração da disciplina na escola. Não incentivou espaços de cura, rodas de troca da experiência dos dois anos de isolamento e convivência com a morte, e as sequelas da imersão no celular.”

Na roda com a diretoria nacional do CGT, na véspera do 2º turno da eleição francesa do Congresso, junto com a Emília de la Eglesia, Presidente da Cultura Viva Comunitária na Argentina, Dan apontou a aliança do governo federal com os parceiros industriais como o maior perigo atual: “O financiamento pela Vale e pelo Petrobras de projetos culturais e educacionais em nome de sustentabilidade, com recursos bem maiores do que o Ministério da Cultura, está determinando as narrativas populares dominantes da memória e da imaginação. O licenciamento da industrialização da Amazônia.”
“Essa cumplicidade do Governo Federal é mais de que dívida política à alianças políticas de 2022. O Lula é prisioneiro cultural à um paradigma ecocidal de progresso, protegido pelas micro tecnologias de sedução e de vigilância íntimas que estão viciando as crianças, adolescentes e guardiões da memória popular, 24 horas por dia. A alfabetização cultural como base da eco-pedagogia nunca foi tão prioritária.”
