
Convidados das Américas levam bem viver de Cabelo Seco ao mundo no início do Fórum Bem Viver.
O primeiro Fórum Bem Viver, comunitário-internacional, encerrou no Dia da Amazônia, com intervenções das Américas na Câmara dos Vereadores em Marabá e oficinas de dança e percussão ministradas pela Policia Militar da Bahia e por arte educadores da Colômbia e do Equador, em Cabelo Seco. O mês de rodas e oficinas pré fórum garantiu que as ideias e energias transformadoras dos 50 convidados do fórum alcançassem diretamente mais de 5.000 pessoas de cinco gerações, em Marabá, São João do Araguaia, Tauari (Itupiranga) e Belém, e centenas de milhares de pessoas através das mídias.

Ato coletivo no Rio Tocantins. Somos bem viver das Américas protegendo o Pedral do Lourenção!
De resultado duradouro, o Fórum Bem Viver inspirou uma rede de ações paralelas e contribuições virtuais em instituicoes solidárias em 42 países, e demonstrou em plena crise que maduras metodologias alternativas e inovadoras existem para construir democracia participativa e comunitária, e criou uma rede com 50 redes, esperançosa, ousada e comprometida com uma Amazônia sustentável.

Retrato dos convidados de Brasil, Canada, Colômbia, Equador, EUA e Galês se manifestam no Rio Tocantins em São João do Araguaia.
Residências pré fórum com arte educadores(as) Carlos Torrado (Uruguai), deputada do parlamento europeu Julie Ward (Inglaterra) e Ben Ross e Britt Neff (EUA), anunciaram a visão latina e inter-continental do fórum, liderado por uma nova geração. Inspiraram estudantes do Direito da Terra e da Antropologia (da Unifesspa) assumirem a gestão de convivências – escutas, diálogos e buscas de colaboração – em comunidades em São João do Araguaia e Tauari. Porém, rodas e oficinas com convidados experientes de Paraíba e Santa Catarina, gestionadas e coordenadas por redes de arte educadores e movimentos sociais em diversos locais, demostraram um fórum comprometido com a prática de confiança e experimentação, livre de formatos de controle ou preso em um só prédio.
“Fomos orientados de escutar, aprender com Amazônia, e plantar sementes de projetos possíveis de colaboração”, disse Eliane Lisboa, da Universidade Federal de Paraíba. “Aprendi tanto sobre esta região, trocando historias de vida com o grupo HistoriArt e colaborando com grupo de teatro do MST.”

Presidente da associação dos barqueiros afirma o fato que os convidados chegaram para escutar São João do Araguaia.
Bel Serrão de Santa Catarina entrou numa roda com crianças no Assentamento 26 de Março reinventando cidades, com crianças do NEI Deodoro de Mendonça em Cabelo Seco, e numa segunda roda com o comandante e soldados da Polícia Militar. Logo em seguida, foi convidada entrar na coordenação dos convidados no Hotel Imperial na Orla. “Já estava encantada com a vivência com crianças reinventando arquitetura urbana num assentamento na Amazônia”, contou Bel, “e com policiais se abrindo em busca de uma segurança comunitária. Me tirou completamente de minha zona de conforto. Mas fiquei ainda mais empolgada com a proposta de vivenciar o bem viver! Na primeira manhã, saímos do hotel em rabetas, e chegamos no encontro dos Rios Itacaiúnas e Tocantins à Casa dos Rios em Cabelo Seco, ao som dos tambores do AfroRaiz. A recepção pelos jovens artistas do Rios de Encontro foi inspiradora!”

Os convidados chegaram à Casa dos Rios de rabeta, no Rio Tocantins.

Os percussionistas do Coletivo AfroRaíz acolherem os convidados com tambores de alerta.
João Pereira do Instituto de Letras e Artes da Unifesspa refletiu sobre a abertura. “O mestre Zequinha cantou o hino de Cabelo Seco, poético e de raiz afro-indígena, e logo em seguida, Camylla, jovem dançarina e coordenadora da Cia AfroMundi apresentou o solo ‘Nascente em Chamas’. Nunca vi uma dança como palestra de abertura! Dramatiza a relação entre séculos de sequelas psico-emocionais das violações e ameaças socioambientais que marcam Amazônia afro-indígena contemporânea, acabando com a distinção entre arte e ciência.

Fórum abre com solo de dança ‘Nascente em Chamas’ na Casa dos Rios em Cabelo Seco.
Artistas, cientistas, enfermeiras, advogados, jornalistas, extrativistas, lideranças indígenas e dos movimentos sociais, professores na mesma plateia, vivenciaram seis provocações sobre o Rio Tocantins, de 2-3 minutos cada, pontuadas por cochichos, de Abraão Levy (Unifesspa), Elizabete Pires (UFPA), Iremar Ferreira (Movimento Rio Madeira Vivo), Ulisses Pompeu (jornalista), Dani Silva (Movimento Rio Xingu Vivo), e Alessandra Munduruku (Movimento Rio Tapajós Vivo).

A roda de provocadores(as) gerou um panorâmico socioeconômico, cultural e político para situar o fórum.
Sem perceber, estávamos trocando saberes, curtindo e cuidando de nossa grande diversidade. Na tarde, depois de uma leitura intercultural das mãos em dupla em silêncio, trocamos histórias de vida e projetos transformadores em pequenas rodas. Em um dia, construímos juntos uma teia de confiança e cultura de colaboração!”

No primeiro dia, foi construída uma teia de confiança e potencial colaborativa para tentar o impossível.


AfroRaíz acolheu os convidados na pracinha de Cabelo Seco.
Depois de uma noite cultural acolhedora na praça de Cabelo Seco e jantar com parceiro Kitutes Restaurante, o Fórum descansou cedo. No segundo dia, ao nascer do sol, o Fórum fortaleceu uma bicicletada ‘Contra Racismo’ e pelo ‘Bem Viver’ na beira do Rio Tocantins na Velha Marabá, organizada pela Escola parceira Plínio Pinheiro, e em colaboração com a PM de Marabá. “A eco-pedagogia da bicicletada”, explicou Manoela Souza, “sempre cultiva valores de comunidade, cooperação, solidariedade, cuidado e generosidade.

A bicicletada contra racismo, em busca de bem viver, liderada pela Polícia Militar de Marabá.
Nesta, com a presença dos 50 convidados, a maioria levando crianças na garupa, provocou diálogos inéditos! Culminou com uma hora de apresentações de dança-percussão com o Coletivo AfroRaiz (pelo projeto Rios de Encontro), de dança e Capoeira pela Polícia Militar da Bahia, diante um público de 400 alunos. A energia de bem viver contagiou todos!”.

AfroRaíz abriu a apresentação artística cultivando orgulho negro e celebração coletiva.

A Polícia Militar da Bahia encanta jovens da bicicletada e cultiva orgulho negro na Escola Plínio Pinheiro.

Polícia Militar da Bahia brinca com aluno do Plínip Pinheiro numa grande apresentação de dança afro e capoeira.
Na tarde, o fórum se dividiu, com 25 arte educadores ouvindo alunos e professores nas escolas Walkise da Silveira Vianna (São Felix) e Dr. Gabriel Sales Pimenta (Morada Nova), através de rodas e oficinas. Paralelamente, 25 gestores, cientistas e pedagogos receberem 08 diretores de escolas na rede pública e gestoras da Semed na Casa dos Rios, e os escutaram explicando a situação grave de educação pública após os recentes cortes dos salários. Depois de trocar experiências de eco-pedagogia, a grande roda de gestores gerou propostas de colaboração inter-estadual antes de se deslocar para continuar a conversa organizada por professores e estudantes de engenheira florestal e pedagogia, em busca de energias alternativas de bem viver, na UEPA. “Aprendi tanto sobre Amazônia “, afirmou Marcos Abreu, liderança em defesa da Soberania Alimentar e jovem vereador de Florianópolis, SC. “Já começamos agendar projetos colaborativos pós fórum. A aproximação do norte e sul gerou a esperança que um país renovado de bem viver, pós golpe, retrocesso e crise institucional, é possível.”

Os convidados se entregam numa dança da terra, rios e floresta na construção de uma pauta coletiva.
As rabetas entregaram os 50 convidados no terceiro dia na Casa dos Rios para entrar numa roda de dança da terra, floresta e rios. “Nunca me imaginei dançando uma pauta!”, disse Célio Turino, arquiteto do programa Pontos de Cultura. Além da sensibilização e integração, a dança criou uma base íntima para refletir sobre os primeiros dias de escuta e idealizar em pequenas rodas primeiras propostas de ação comunicativa criativa. A diversidade de cada roda gerou propostas inovadoras e sustentáveis que se aprofundaram no almoço em Kitutes, antes de viajar para São João do Araguaia, a cidade que ficará submersa, debaixo d’água, caso a hidroelétrica seja construída.

Em pequenas rodas, os convidados trocam projetos e ações criativas para gerar colaborações possíveis.
A primeira roda numa das cidades mais antigas no Pará transpareceu a unanimidade contra a hidrelétrica, fortalecida por depoimentos da Dani Silva do Movimento Xingu Vivo e da Alessandra Munduruku, cujo povo conseguiu barrar a hidrelétrica projetada para o Rio Tapajós em 2016. Os 50 convidados se dividiram para escutar agricultores e conhecer projetos agroecológicos no Assentamento 01 de Março e ouvir historias de vida dos antigos moradores no vilarejo Apinajés. “Trocas autênticas e generosas”, explicou Leonardo Santana, jovem vereador de São João, “aconteceram porque o Fórum chegou para escutar e fortalecer. Fomos ouvidos primeira vez em nossa história!”

Os moradores/as de São João do Araguaia escutam depoimentos de Dani Silva do Movimento Xingu Vivo para Sempre e Alessandra Munduruku do Movimento Tapajós Vivo para Sempre para vislumbrar seu futuro e tomar decisões informadas sobre opções energéticas.

Alessandra Munduruku é pequena, mas tem coragem imensa e clareza inspiradora.
Os convidados trocaram reflexões sobre suas experiências do fórum enquanto que se deliciaram no final da tarde, no Rio Tocantins. “Rodas abriram, se espalharam, se misturaram e mudaram, no por do sol”, disse Gus Greenstein, jovem pesquisador em desenvolvimento sustentável na Universidade de Oxford, nativo da Califórnia-México. O dia encerrou com um grande jantar bem viver de cari, tucunaré, galinha caipira e porco orgânico, doada pelo assentamento, e uma noite cultural na praça diante 500 moradores, aberta com o mestre Zequinha e AfroRaiz de Cabelo Seco.

Leonardo Santana apresentou comida típica bem viver, doada ao fórum.
“Ninguém pode dimensionar o impacto da visita do fórum aqui em São João”, sorriu morador-organizador Emanoel Rosa do Direito da Terra (Unifesspa). “Agora temos a coragem de resistir e lutar pelo bem viver, não a indenização!”

AfroRaíz abre a noite cultural em São João do Araguaia.

Iremar do Movimento Rio Madeira Vivo para Sempre cantou na noite, apoiado por uma bandeira segurada por crianças locais.

Milena da PM-Bahia encantou o público com sua raíz afro-brasileira.

Cláudia, dança educadora colombiana, destacou a raíz latina na sua apresentação.
O mesmo impacto surgiu no último dia numa escuta e conversa com moradores no vilarejo de Tauari, na beira dos Pedrais do Lourenção. Logo em seguida, os 50 convidados improvisaram uma ação criativa cantada num dos pedrais, filmada com drone pelo cineasta Todd Southgate (diretor canadense do premiado documentário ‘Belo Monte: Depois das Inundações’), e o fórum almoçou Tucunaré. Ana Luisa Rocha levou sua neta, Indiara, participante do projeto Rios de Encontro desde 2011, para vivenciar o bem viver. “Cantando no pedral foi bacana!”, disse Ana Luisa, gestora de saúde indígena e integrante do projeto desde 2009. “Foi importante para nos todos ouvir os depoimentos de jovens lideranças das lutas para proteger os Rios Xingu e Tapajós. Marabá pode aprender muito com estas histórias comunitárias!”.

Participantes da Américas afirmam bem viver em defesa dos rios da Amazônia num Pedral do Lourenção.
Na volta à Marabá, depois de uma troca de sabores oferecidos de cada região do Brasil e das Américas, o fórum reuniu os 50 convidados na tardinha em pequenas rodas finais de reflexão e propostas de próximos passos. Esta segunda e última plenária somou e aprovou tudo em um calendário integral, antes de uma serie de despedidas artísticas improvisadas que estendeu por 90 minutos. “Ninguém quis sair!”, riu a arte educadora Cláudia Giraldo da Colômbia. “Ninguém quis largar um verdadeiro território de bem viver”, afirmou o psicólogo indígena Oscar Paredes de Equador.

O fórum volta de suas escutas para refletir e projetar os próximos passos.
“Vivenciamos bem viver, sem discurso”, celebrou Dan Baron, da coordenação do projeto Rios de Encontro e co-idealizador do fórum com a Rede Brasileira de Arteducadores (ABRA), “Assim, evitamos um encontro abstrato e cansativo, e qualificamos todos à defender Amazônia a partir de uma vivência de sua beleza e riqueza, suas raízes, seus saberes e sabores.

A vivência da beleza amazônica enraizará sua defesa em um compromisso duradouro.

A PM-Marabá aprende sobre a importância de integrar as artes na formação e prática de uma segurança comunitária, enraizada em cultura popular e alfabetização cultural.
A mesma formação e transformação aconteceram, no Pós Fórum. Nossa grande parceira, a PM-Bahia, encantou a PM de Marabá. Depois, inspirou jovens dançarinas e percussionistas de Cabelo Seco na Casa dos Rios, a partir de teatro, dança e percussão populares, demonstrando igualdade de raça e gênero, e sua dedicação à justiça social e à libertação dos jovens afro-indígenas e de todos e todas no Brasil. Sobretudo, demonstrou que o Projeto Bem Viver, envolvente, humano e democratizador, é bem vivo e viável!”

Retrato de unidade de projeto entre a PM da Bahia e de Marabá, na praça de Cabelo Seco.
No dia da Amazônia, as vozes das Américas no fórum se juntaram com os jovens artistas de AfroRaiz à tribuna na Câmara dos Vereadores.

AfroRaíz abre a contribuição à tribuna na Câmara dos Vereadores em Marabá.


Cláudia Giraldo da Colômbia cita erros graves cometidos com a implantação de hidrelétricas na sua região para sensibilizar vereadores sobre as opções energéticas enfrentando Amâzonia.
Após os tambores de Cabelo Seco, 30 minutos de depoimentos humanos e científicos da Colômbia, Equador, México, Índia, China, Moçambique, Lesoto, África do Sul e EUA sensibilizaram os vereadores e a plenária sobre o consenso científico mundial sobre a destrutividade sócio-ambiental e inviabilidade econômica da energia hídrica. Citaram Altamira, que se tornou a cidade mais violenta no país depois da construção da Belo Monte, e os rios mortos no mundo inteiro, forneceram argumentos socioeconômicos e culturais sobre porque investir em energia solar comunitária e cooperativa.

A contribuição coletiva do fórum no Dia da Amazônia integrou pesquisa cientifica, beleza cultural e depoimentos de cinco países sobre a inviabilidade e destrutividade de energia hídrica.
“Semed já está comprometido com o desenvolvimento municipal de um projeto político eco-pedagógico”, disse Dan Baron. Apelando aos vereadores, Dan finalizou: “O Comandante da PM, o Reitor da Unifesspa, os Secretários de Educação, Cultura e Meio Ambiente, diretoras das escolas, médicos, arquitetos, enfermeiras, pescadores e comunidades indicam energia solar. Porque não trabalhar juntos para transformar Marabá da décima e uma cidade mais violenta no Brasil em liderança e referência mundial de bem viver, abastecido por energia solar, solidária com as gerações do futuro?
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