Jovens afro-raíz afirmam escola com futuro

A turma de Conexão Afro se retrata com AfroRaiz na Galeria do Povo, em Cabelo Seco.

Rios de Encontro, o projeto eco-cultural e socioeducativo enraizado na comunidade Cabelo Seco desde 2008, encerrou na sexta feira passada um projeto inovador, na escola EMEF Irmã Theodora, no bairro Liberdade. Coincidiu com a publicação do projeto no site Atlas do Futuro 2018 (https://atlasofthefuture.org/brazils-rivers-of-creativity-futureleague-rios-de-encontro/), selecionado pelo Conselho Britânico e a Universidade de Goldsmiths em Londres, e com a confirmação que seu Coletivo de dança-percussão Afro-Raiz realizará uma turnê pela Europa de 10 semanas no segundo semestre de 2019.

O Coletivo AfroRaiz e turma ensaia ‘Conhecendo África’ na escola. AfroRaiz foi premiado pela Itaú Unicef em novembro 2018 por sua energia sustentável ‘gira sol’.

“Este projeto superou todas minhas expectativas”, elogiou a Professora Doelde Ferreira, colaboradora com Rios de Encontro desde 2014. “Criamos o projeto Conexão Afro para transformar preconceitos racistas na escola em uma celebração de nossas raízes Afro. Realizamos oficinas de adereços, turbantes, brincos e pulseiras usando materiais reciclados, coordenadas pela arte educadora Carol Nascimento. Mas o projeto continuou no canto da escola, cercado pelo preconceito de “macumba”. Em dez oficinas de dança-percussão com os jovens de AfroRaiz, o projeto alcançou a escola inteira, transformando timidez e vergonha em orgulho e autoconfiança! AfroRaiz virou nossa referência!”

Os jovens ensaiam ‘Conhecendo África’ na Casa dos Rios em Cabelo Seco.

Os jovens de AfroRaiz ensinaram ritmos através de brincadeiras com a boca e corpo, antes de passar três coreografias de Guine Bissau. “Adaptamos nosso aprendizado com o Coletivo Abayomi de Florianópolis”, disse Camylla Alves, 23 anos, coordenadora de dança. “Já repassamos tudo para Cabelo Seco, mas pela primeira vez, realizamos um projeto inteiro numa escola.”

Os jovens colanboradores se retratem no encontro dos Rios Tocantins, Itacaiúnas e Araguaia na Orla de Cabelo Seco.

“Sinto orgulhosa que depois de 10 anos de formação artístico-pedagógica, nossos jovens assumiram o planejamento e a realização da colaboração,” disse Manoela Souza, coordenadora de Rios de Encontro. “Cuidaram das diversas motivações do grupo e da organização de equipamento e transporte. A responsabilidade fortaleceu o coletivo e mostrou a capacidade de liderança dos jovens.”

A colaboração afro-raiz se retrata na Camara dos Vereadores após a apresentação.

O processo culminou com a apresentação “Conhecendo África” na Semana de Consciência Negra, no palco do Shopping, na Escola Josinelde Tavares, na própria Irmã Theodoro e na Câmara dos Vereadores. Numa roda final de reflexão após a apresentação na escola, os 28 alunos destacarem prazer, libertação e a transformação da escola em um espaço de encantamento. “O que me impressionou”, disse Rerivaldo Mendes, percussionista de 23 anos, “foi a coragem de apresentar na Josineide Tavares, sem tambores, sem nós, usando a boca e palmas como ritmo para manter as coreografias!”

AfroRaiz mobiliza energias quilombolas na plenária da Defesa da Educação Pública na Unifesspa.

“Espero que ninguém mais vai alisar e pintar seus cabelos ou sentir vergonha”, disse Elisa Neves, 21 anos, percussionista em AfroRaiz. “Na escola, era danada”, disse Camylla. “Resgatando minha raiz-afro me deu confiança, trouxe reconhecimento e respeito, na escola, na rua, nas instituições da cidade.” Évany Valente, percussionista de 19 anos, agradeceu: “Com vocês, aprendi que tenho paciência para ensinar!”

AfroRaiz assista a mesa de abertura da roda da Frente Popular.

“A colonização e escravidão plantaram séculos de auto-ódio, medo e vergonha de cumplicidade”, disse Dan Baron, coordenador geral do Rios de Encontro. “Essas energias escondidas tem licença pela primeira vez de se expressar no WhatsApp e Facebook. Mas mais grave, são exploradas por políticos e grandes empresários para lucrar e promover uma sociedade autoritária. AfroRaiz, e sua capacidade transformadora na escola, é fruto de dez anos de descolonização destas sequelas auto-destrutivas. Investimento neste tipo de projeto juvenil, não em armas e disciplina militar, gera auto-respeito e cidadania.”

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