
Durante o primeiro semestre, Rios de Encontro, o projeto comunitário eco-cultural e socioeducativo do bairro Cabelo Seco, realizou seis ‘Rodas de Solidariedade Intercontinental em Tempos de Pandemia’; participou numa ‘Roda das Américas Sobre Transformação através de Performance’ e numa reunião da Rede Latino-Americana de Teatro Comunitário; contribuiu ao primeiro simpósio virtual sobre ‘Desenvolvimentos no Teatro e Performance Africanos’ realizado pela Associação de Teatro Africano; e coordenou a Rede Brasileira de Arteducadores na gestão do 3º Fórum Bem Viver (virtual). A busca inteira, a distância, por uma metodologia ‘bem viver’ virtual capaz de gerar esperança para um futuro em alto risco, se concretizou na Semana Mundial de Ação Climática no sábado passado.
“Neste ano, o projeto vem incentivando trocas intercontinentais de perspectivas entre jovens lideranças sobre os impactos do Covid 19 nas comunidades mais vulneráveis”, disse Dan Baron, coordenador internacional do Rios de Encontro. “Em particular, conversamos sobre como sustentar arte-educadores que inspiram tantas reflexões e soluções criativas sobre a carência humana diante a vulnerabilidade econômica durante a pandemia.”

Rios de Encontro convocou uma primeira roda da Rede Brasileira de Arteducadores (ABRA) e parceiros do projeto Silk Roads (Ruas de Seda) em Abril de 2020 para pensar sobre solidariedade em tempos de pandemia. “Começamos acendendo uma vela para lembrar todos que passaram ou perderam alguém durante o Pandemia Covid19. Cantamos e trocamos experiências de lockdown,” explica Dan Baron. “Nós, arte-educadores de Marabá, Juiz de Fora e Moeda (MG), Salvador (BA), São Luis (MA), Florianópolis (SC), Lima (Peru), Auckland (Nova Zelândia), Kampala (Uganda), Lille (França), Barcelona (Espanha), Taipei (Taiwan) e Hong Kong, descobrimos uma sede profunda em comum pelo abraço real, conversa íntima, e desejo de caminhar com calma e confiança. Após duas rodas, formamos um núcleo gestor para reunir mensalmente em busca de uma metodologia artística de Bem Viver, rumo ao Dia Mundial da Amazônia.

Paralelamente, após quatro meses de diálogo, no dia 12 de agosto, Dan Baron finalizou planos para realizar uma conversa mundial virtual com Dra Fernanda Liberali da PUC-São Paulo, Dra Ursula Carrascal da Associação Minaq Ecodanzada em Lima, e Dr Dan Friedman do East Side Institute em New York, sobre Amazônia Bem Viver em 15 de agosto. “Queríamos inventar uma metodologia participativa e criativa na plataforma Zoom, e evitar uma mesa autoritária”, disse Dan. “Canto coletivo não funciona no Zoom. Apostamos no ritual e na dança visuais.”

“Os organizadores em New York confiaram em nossa proposta. Já haviam assistido os espetáculos ‘Raízes e Antenas’, ‘Deixa Nosso Rio Passar’ e ‘Lágrimas Secas’ em 2014 e 2015,” disse Dan. “No 15 de Agosto, então, eu e Manoela Souza, nossa gestora cultural, apresentamos Rios de Encontro como exemplo do projeto Bem Viver. Mostramos nosso vídeo documentário e o solo de dança contemporânea ‘Nascente em Chamas’ da Camylla Alves, coordenadora da Cia AfroMundi. Uma platéia de 120 pessoas de 20 países vivenciaram o potencial transformador da dança para curar e unir comunidades sequeladas, na busca de saúde integral e justiça social e climática.”

No mesmo dia 15, na 3ª Roda Intercontinental de Solidariedade, Max Sechaud, diretor teatral franco-vietnamês, Eric Ng, ativista teatral do Movimento Umbrela de Hong Kong, e Nanxi Liu, chinesa, gestora de teatro comunitário em Hong Kong, Karol Cunha do Cursinho Popular Geraldo José e Dirceu Ten Caten, Deputado Estadual, ambos de Marabá, trocaram relatos sobre a situação extrema para os povos de seus países. “A nova Lei de Segurança Nacional, imposta em Hong Kong pelo governo da China, já está criminalizando e calando os estudantes, trabalhadores e artistas que mobilizaram em 2019 dois milhões de cidadãos ocuparem as ruas para questionar a violação de direitos humanos”, explicou Nanxi (30 anos).
“Desacreditamos na atual política institucional”, complementou Eric Ng (35 anos), “e nas declarações de apoio do Trump para nosso movimento pela democracia. É teatro político. Para camuflar sua destruição da democracia no mundo.” “Hoje, declaramos solidariedade com Amazônia, os pulmões e saliva do mundo,” disse Max (30 anos). “Mas como atuar, para fortalecer e não prejudicar os povos em cada continente no mundo? Estamos tão interconectados!”
“Aprendi muito com essas rodas com lideranças de minha geração”, disse Dirceu Tem Catem (30 anos). “O Governo da China aproveitou da tragédia da pandemia. O governo federal aqui também está aproveitando da pandemia para acelerar os grandes projetos da mineração e desmatamento, financiado pelo mesmo governo Chinês.” A Karol focalizou sobre os impactos do vírus na saúde e educação popular, e em particular, das mulheres nas comunidades em Marabá. “Fiquei inspirada para ouvir como meninas, mães e avôs estavam todas nas ruas, criando um projeto popular. Quero conectar projetos de educação popular na defesa de nossos rios e florestas!”

“O simpósio em julho sobre Teatro Africano no Mundo destacou a descolonização da identidade negra”, disse Dan Baron, ”e a longa caminhada para definir as identidades inter-continentais dos afro-descendentes na diáspora. Me inspirou refletir muito sobre nosso projeto em Cabelo Seco. Demorou 10 anos para transformar o preconceito de ‘macumba’ contra o tambor e a dança afro. Fiquei impressionado pela ideia dos ‘presentes africanos para o mundo’, viveiros, portos, cidades, música, dança, faculdades de cultura africana. Tudo que foi construído com amor pelos escravizados. Muda da perspectiva de vítima à generosidade afro e fundamenta o significado do movimento mundial atual de Vidas Pretas Importam.”

“A roda da Rede Latino-Americana de Teatro Comunitária manifestou a resiliência desse continente!”, disse Dan, co-fundador da Rede em 2009. “Nossos parceiros que já visitaram Cabelo Seco, Vichama Teatro (Peru), Nuestra Gente (Colômbia) e Pombas Urbanas (São Paulo), destacaram a luta para resgatar espaço público (teatros, ruas e pracinhas), como uma prioridade urgente para defender a democracia participativa e valorizar a ‘cultura viva comunitária’ para cicatrizar as sequelas da pandemia e repressão populista atuais. A roda juntou artistas e gestores culturais de 12 países que se solidarizaram com Amazônia e se comprometeram em discutir a mineração invisível de nossos sonhos e desejos, pelas Redes Sociais.”

As Rodas Intercontinentais decidiram realizar um 3º Fórum Bem Viver, virtual e contínuo, começando no Dia Mundial da Amazônia, em 05 de Setembro até o final da semana do Dia Mundial de Ação Climática, 03 de Outubro, em solidariedade com Amazônia.
“Mas falarei como Nanxi”, disse a Chinesa, logo após realizar uma ação cultural para defender jovens estudantes detidos num presídio de tortura do Governo Chinês, em Hong Kong. “É impossível representar um país de 1,6 bilhões, muito menos um continente. Mas parei de comer boi em solidariedade com Amazônia, que pode inspirar milhões.”
Eric concorda. “Não posso representar Ásia. Quero criar rodas íntimas de confiança, que evitam o politicamente correto, e criam relações, projetos e redes éticas”. Max concorda. “Vamos usar rodas virtuais para criar um movimento mundial para tirar os vírus econômicos, políticos e sanitários de nossas vidas. Mas não quero viver num mundo mascarado, sem abraço, beijo, conversa espontânea com desconhecidos, o ‘novo normal’. Quero chegar em Marabá como artista, educador e liderança de minha vida, para ajudar criar uma cultura de cuidado internacional.”

O Núcleo Gestor do Fórum Bem Viver intensificou suas reuniões virtuais em casa de 15 em 15 dias, integrando todos os experimentos. “Nessa pandemia”, disse Manoela Souza, “a casa voltou a ser o centro da vida segura. No Dia Mundial da Amazônia, ouvimos sobre o maior aprendizado, em casa. Na Semana de Ação Climática, além de acender uma vela na tela, cada um dos 50 convidados de Brasil, Argentina, Equador, Peru, Canadá, EUA, Nova Zelândia, Austrália, Hong Kong, Taiwan, França, Inglaterra, Espanha, Alemanha, Israel, Uganda e África do Sul plantaram uma semente, na tela, em casa. E depois de rodas paralelas sobre Educação, Cura, Política e Solidariedade, experimentamos com um abraço íntimo-mundial, em casa! Muitos se emocionaram!”

Dan Baron complementa. “Essa performance virtual inspirou cada participante integrar cuidado pela familia, comunidade, cidade, rio, floresta, campo e mundo, a partir de ações reais. Assim, no virtual, transformamos a pandemia de uma alerta cruel em um retiro de formação. Virou uma vivência marcante em como entender o mundo bem viver, e como retomar e reinventar nossas raízes indígenas cortadas ou adormecidas.”
































