Nessa segunda carta, Elisa Dias conta sua experiência na Alemanha em sua viagem de formação como gestora e produtora internacional com Dan Baron, na gestão da turnê europeia que vai acontecer em setembro-outubro de 2019.

Elisa e a turma de Cologne encerram uma ofiicna de ritmos afro-indigenas com placas preparadas pelos atos Sextas pelo Futuro.
Amigos e Amigas.
Minha experiência em Bélgica foi algo extraordinário pelos tantos aprendizados em poucos dias. Agora mais acostumada com a rotina de encontrar uma nova equipe ou organização duas vezes por dia, minha experiência na Alemanha me tirou da zona de conforto, e valorizar a liberdade de vivenciar o inesperado!
Chegando no país de Alemanha depois de uma hora e meia de viagem, eu e Dan fomos recebidos na super-moderna estação do trem da cidade medieval de Cologne, por Antônia Gogelsgang, gestora internacional responsável pela organização de todas as turnês do projeto KinderKulturaKaravane (Caravana Cultura Infantil), na União Europeia. Na cozinha do velho apartamento dela, cheio de tambores, bonecos, fotos e pinturas, descobrimos que a Antônia era Brasileira afroindígena de uma família humilde do interior de Pernambuco. Formada em Estudos Latino-Americanos e Ciências Políticas, já com uma história de vida em Moçambique, e fluente em Português, Alemão, Inglês e Espanhol! Antônia nos serviu com um prato de moqueca de camarão com arroz, enquanto que nos preparou para nosso primeiro dia! Em seguida, encontrei os jovens com quem dividia o apartamento, um percussionista e uma psicóloga.
Na próxima manhã, após um ensaio no porão do antigo prédio, encontramos o vice prefeito, do Partido Verde, bem engajado na luta pela defesa da natureza. Estava com dor de garganta e resolvi em só tocar para não machucar minha voz, mas após prestigiar uma pequena amostra de um grupo de crianças e adolescentes de El Salvador, eu me descobri cantando e tocando com força a primeira apresentação do meu solo para o fórum internacional em Barcelona! Fui tão espontânea, e muito bem recebida. Mas percebi minha capacidade de superar o medo em adoecer a minha voz.
A curta introdução do Dan e meu solo ganharam uma conversa particular com o vice prefeito que ficou impressionado com uma jovem mulher que, com pouca idade e sem saber que Marabá era parte de Amazônia ou que tinha sangue africano e indígena nas suas veias, resgatou suas raízes e tornou-se defensora da Amazônia, pulmão do mundo. Se apaixonou com Rios de Encontro!
Num almoço com professores de uma das escolas na região onde íamos apresentar, contei a história de uma criança buscando ventos para empinar sua pipa em tempos de seca. Como uma das coordenadoras de nosso festival da pipa, contei a história sobre a participação de meu filho Pietro e consegui sensibilizar e acalmar os professores experientes, preocupados com a capacidade de crianças entenderem porque Amazônia estava secando. Perceberem quanto as crianças na plateia soprando em solidariedade com a criança no palco, seriam os atores principais de fazer voar a pipa em nosso espetáculo. Cada pergunta gerou ideias ao levar nosso coletivo. Foi cansativo para mim por conta da tradução e tanta concentração, mas a conversar foi de tanta qualidade que me deixou ansiosa para montar o espetáculo com nosso coletivo AfroRaiz.
A noite, assistimos o espetáculo comunitário de El Salvador, apresentado numa Casa de Juventude em Colongne. No palco, trocaram uma cena sobre desafios de explicar a bandeira nacional pelos dramas de sua experiência de viagem, uma história sobre sua identidade cultural. O teatro popular me encantou, e me provocou refletir sobre meu próprio solo, tão ensaiado e preso no medo de errar ou me machucar. Depois de prestigiar o espetáculo de El Salvador, animado, interativo com o público infantil, com personagens lúdicas e afetivas, fui chamada por Ulla, a mulher sabia e responsável pela nossa turnê na Alemanha, para apresentar uma previa de nosso espetáculo. Para não roubar a cena do grupo de El Salvador, convidei um menino do grupo para tocar comigo no palco e improvisei uma micro-oficina de palmas e ritmos, interagindo no palco com ele e brincando com a plateia. Meu solo apareceu, mas numa forma desconhecida por mim! Agradeci o público e convidei todo o elenco de El Salvador agradecer junto comigo.

Elisa reune com os gestores de uma escola em Cologne como parte da formação dela como gestora internacional. Dan cuidou das posições da tradutora e das gestoras para garantir que Elisa não foi excluída ou inviabilizada por acidente.
Naquela Casa de Juventude, uma gestora da casa nos contou que ali mesmo mulheres foram mantidas presas, fazendo trabalho escravo, ganhando pouco por muito esforço. Na saída, entendi um pequeno monumento na parede, entitulado ESCRAVIDÃO NUNCA MAIS.
No próximo dia, na madrugada, fomos para o aeroporto. Em Lisboa, tinha direito de colocar duas malas no porão, mas nessa viagem para Polônia, só uma foi permitida. Meu djembe profundamente embalado, ficou no porão, e ainda acordando, esquecemos minhas garrafas de higiene acima de 100ml na minha mala de mão. A regra foi rigidamente aplicada e perdi todas as garrafas.
Mas no avião, uma aeromoça brasileira que nos atendeu, percebeu que eu falava português e logo perguntou se o Dan e eu éramos casados. Fiquei sem graça e ao mesmo tempo chateada pela forma das pessoas pensar sobre nós mulheres brasileiras viajando para outro país. Mas logo falei sobre o projeto amazônico e o porquê estava na Europa, e ela se interessou, até que me passou seu email e número de telefone, para avisá-la sobre a programação da turnê. Olhei para ela, presa na minha percepção e indignação, e a re-enxerguei, aberta ao inesperado, solidária com um projeto socioambiental.
Fiquei muito grata por essa minha formação, ansiosa para compartilhar tudo com os meus companheiros do coletivo AfroRaiz.




























































